sábado, 19 de janeiro de 2013

Ah! como suas verdades me doem, Caio!


Dois ou três almoços, uns silêncios.Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".
Caio Fernando Abreu


Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Para começar 2013



Assim como em O amor e outras drogas, eu também quero o inesperado da vida. Fico feliz com a exceção, seja ela pequinininha, como o reencontrar de alguém que não se vê há muito tempo, como também algo que entre na história, ou alguém que transforme o ritmo dos passos.
 Sem descrever que seja apenas inesquecível e memorável .

“Eu me preocupava bastante com o que queria ser quando crescesse, quanto ganharia ou se me tornaria alguém importante. Às vezes, as coisas que você mais quer, não acontecem. E às vezes, as coisas que jamais esperaria, acontecem.”

Filme; “O amor e outras drogas


sábado, 22 de dezembro de 2012

2013

Eu caminhei por muitas horas, carreguei tudo que já tinha ficado, atravessei o deserto.Eu corri, subi, desci, escorreguei, finquei, topei. Eu andei por lugares lindos, vivi algumas histórias, passei rápido, parei pouco, por precisar sempre voltar.
Eu estou agora no ponto de partida, disposta a percorrer outras trilhas que antes não tive tempo de arriscar. E o melhor, com calma e sem olhar para trás, sem desmerecer momento algum.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Eu estou paralisada pelo medo

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Me sinto assim, meio Cahit. Medo de um final trágico... Enfim, não quero ser compreendida.Escrevo depois sobre essa cena linda.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012


Das descobertas desse ano:
Trabalhos manuais me acalmam na TPM.
Estar, vez por hora, em contato com a natureza me faz um bem enorme.

E eu que só ia à praia para sentar, conversar debaixo do guarda-sol com uma cervejinha, apreciando o visual ; percebi que não há nada melhor do que nadar, estar dentro d´água, se jogar. Coisa simples, mas nem com sete anos de terapia, aprendi o que me desse uma sensação tão grande de renovação como o mar- fazer trilhas também.
Nem sempre precisamos de grandes mudanças ou decisões. Só não posso não permitir -me, como já fiz e faço ainda.

sábado, 6 de outubro de 2012


Tá, mas fui ao Festival do Rio, ao menos,  assisti a um filme “Bye bye Blondier”, que me fez relembrar a frase “ Amores são sempre amáveis, pois é a história de duas mulheres que vivem uma grande paixão na juventude e muitos anos depois se reencontram , resolvem se casar, porém ambas tornaram-se pessoas completamente diferentes do que na ocasião que namoraram.
Acho curioso, e tão raro, duas pessoas resolverem se reaproximar depois de tempos, seria uma tentativa de reencontrar quem não existe mais ou quem sabe, ainda exista?

Contudo, o filme é um convite à nostalgia do passado vivido de forma leve e bem humorada. Vale a pena assistir também por tratar da homossexualidade de uma forma simples sem tantos conflitos. O embate se dá mais pelo preconceito que uma  das personagens sofreram por fazer parte do movimento punk da época do que pela questão de gênero, fugindo assim do habitué.
Ah! Há diversas questões para se pensar, mas fico ainda com a pergunta de cima.